A voz que acusa e a seletiva memória do poder
O clamor presidencial por probidade ecoa em dissonância com a própria história e as conveniências do momento político, evidenciando um padrão de cobrança unilateral.

A cena se repetiu nesta terça-feira, 20 de outubro de 2026, em Juazeiro (BA), sobre a Ponte Presidente Dutra. E vale o esclarecimento: não foi na Ponte Salvador-Itaparica. Afinal, seria difícil. Depois de anos de promessas, anúncios milionários, estudos, projetos e cifras que parecem não ter fim, a tão falada travessia continua existindo mais no imaginário político do que na paisagem baiana. Tornou-se quase uma miragem administrativa: todos falam dela, muitos garantem que um dia aparecerá, mas ninguém consegue atravessá-la.
Diante de uma plateia de apoiadores, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva brandiu a máxima de que “um ladrão não vai governar o Brasil”. Trata-se de uma declaração de forte impacto e grande apelo retórico que, em qualquer contexto, poderia ser recebida com aplausos.
Contudo, é preciso encarar os fatos e fazer uma pergunta direta, sem eufemismos: a quem exatamente o presidente se refere ao empunhar esse estandarte de moralidade política? A retórica, como tantas vezes ocorre, revela-se um terreno fértil para o confronto entre discurso e realidade.
Não se trata de mera coincidência que discursos tão peremptórios surjam em atos de campanha. A proclamação
“enquanto eu tiver perna para andar, braço para trabalhar, cabeça para pensar e boca para falar, um ladrão não vai governar o Brasil”
evoca uma imagem de paladino da justiça. No entanto, a observação mais atenta da conjuntura política recente e passada nos leva a questionar a profundidade e a universalidade dessa premissa. O discurso oficial esbarra na realidade de que a própria trajetória política nacional, incluindo a do Partido dos Trabalhadores, não está imune a capítulos complexos e questionamentos sobre probidade que deveriam, idealmente, exigir a mesma intransigência.
O incentivo à mobilização do “exército do Lula” nas ruas e nas redes digitais, tão ressaltado pelo presidente, reforça a natureza profundamente eleitoreira da fala. “É importante a briga cotidiana”, afirmou o petista. Esta mobilização, vendida como um instrumento democrático de engajamento, muitas vezes se traduz na prática em um cerco discursivo que busca blindar o governo de críticas, silenciar vozes dissonantes e desviar o foco de questões incômodas, transformando a arena pública em um campo de batalha permanente, onde a verdade cede lugar à narrativa conveniente.
É exatamente neste ponto que a seletividade da indignação presidencial se revela de forma mais contundente. No mesmo discurso em que se autoproclama guardião contra a corrupção, o presidente Lula voltou a cobrar a abertura dos sigilos de Flávio Bolsonaro. Esta é a mais clara das contradições. Por trás da retórica oficial, a realidade expõe um padrão em que a lupa é direcionada implacavelmente para os adversários políticos, enquanto as lacunas e as sombras em torno de aliados ou de históricos próprios são convenientemente obscurecidas. Faltam explicações convincentes sobre o porquê de tal fervor moral ser aplicado com pesos e medidas tão distintos.
A conta, mais uma vez, recai sobre a inteligência do cidadão. Não podemos nos iludir com slogans que, embora potentes, carecem de lastro na prática política diária. A verdadeira probidade não se manifesta apenas na acusação alheia, mas na autoanálise rigorosa e na exigência de transparência para todos, independentemente da cor partidária. Ao contrário do que foi prometido por tantos políticos ao longo da história, a bandeira da ética não pode ser um mero acessório de campanha, erguida e arriada conforme a conveniência do momento.
O país merece mais do que o espetáculo da hipocrisia política. Merece que a máxima “um ladrão não vai governar o Brasil” seja um princípio inegociável, aplicado com rigor e imparcialidade a qualquer esfera de poder, sem distinção ou atenuantes. O presidente, ao proferir tal frase, não apenas acusa, mas também eleva a régua para si mesmo e para todos que o cercam. Resta saber se o espelho da autocrítica terá a mesma luminosidade do holofote direcionado aos outros.



