Alerta para gestos de controle em namoros de jovens
Histórias de presentes 'impostos' e o 'teste do não' revelam como atitudes possessivas podem escalar para violência, com aumento de 25% nas denúncias.

Gestos que parecem carinhosos no início de um namoro, principalmente entre adolescentes, podem, na verdade, mascarar atitudes controladoras e ser o ponto de partida para a violência de gênero. O alerta é de especialistas que atuam na prevenção, em um cenário onde as denúncias por maus-tratos, abusos e agressões sexuais apresentaram um aumento de 25%, conforme dados noticiados pelo EL PAÍS.
Um exemplo claro dessa linha tênue entre gentileza e controle é o caso de uma jovem que, ao receber um presente de roupa do namorado, é recriminada por ele ao escolher uma peça de seu gosto. A consultora de gênero Laura Viñuela, especialista em igualdade e prevenção da violência na adolescência, utiliza essa história em oficinas para jovens, mostrando como a frase "Se eu vou te dar a roupa de presente, sou eu que vou escolhê-la" revela uma tentativa de posse.
Segundo a socióloga Carmen Ruiz Repullo, a violência de gênero não se limita à agressão física, mas "costuma começar com outro tipo de atitudes que – a priori e principalmente sob o ponto de vista dos jovens – parecem menos graves, como o controle da roupa, das amizades e das redes sociais e aumenta até chegar à agressão física". Essa dinâmica marca a diferença entre um "cavalheiro", que age com respeito mútuo, e um controlador, que impõe suas próprias regras, desrespeitando a liberdade do parceiro.
A percepção do que significa ser um "cavalheiro" também mudou ao longo do tempo. Laura Viñuela explica que o que antes era visto como romântico, como a cena do filme "Uma Linda Mulher", em que a personagem de Julia Roberts compra roupas a gosto de Richard Gere, hoje seria visto como uma atitude com interesses velados. Isso ocorre porque a ideia de amor romântico é uma convenção cultural, um discurso moldado pela história, literatura, arte e, mais recentemente, pela cultura audiovisual.
É fundamental, portanto, contextualizar esses ideais de amor historicamente para compreender como eles influenciam a maneira como as pessoas se relacionam. Segundo Viñuela, "são mitos e ideais que interiorizamos e que vão configurando um modelo em nosso cérebro do que deve ser o normal, um modelo que nos diz como deveria ser a relação romântica perfeita, até mesmo antes de a vivenciarmos".
Apesar de ser um aprendizado, é possível modificar esses modelos. A negociação é um pilar central em qualquer relacionamento. "Entender que em todo romance é preciso negociar com quem irá estabelecer essa relação: em quais termos irá funcionar melhor, as expectativas, o que queremos fazer, o que podemos ou não dividir, etc. e não deixar de fazê-lo com o passar do tempo, porque o amor vai mudando", pontua a especialista. Caso a relação não funcione mais, ela enfatiza que "a vida é longa e iremos conhecer muita gente. Não precisamos transformar o amor em uma prisão".
Símbolos populares, como o "cadeado do amor", também reforçam uma visão equivocada de posse. "É uma imagem dura, de bloqueio. De garantir e prender o amor", critica Viñuela, destacando como esses mitos de renúncia e posse são herdados da cultura e família, levando as pessoas a acreditar que falharam se esses ideais não forem cumpridos.
Outro ponto crucial é diferenciar uma ligação para "saber se está bem" de uma para "saber onde você está". O limite, embora nem sempre simples de identificar, está no respeito à liberdade e independência do parceiro. Viñuela aconselha os jovens a "escutem seu corpo, e se perceberem que estão ficando angustiados, com ansiedade, repúdio e qualquer outro tipo de somatização, falem". Se a outra pessoa não aceitar a necessidade de espaço, isso já é um problema.
Para detectar padrões controladores, o psicólogo australiano especialista em violência de gênero Rob Andrews desenvolveu o "NO TEST". O teste consiste em observar a reação do parceiro à primeira vez que recebe uma negativa. Um exemplo relatado por Andrews mostra uma amiga que, ao cancelar um encontro por não se sentir bem, viu o namorado se enfurecer. Ela percebeu que nunca havia o contrariado antes. A forma como o parceiro lida com um "não" é um indicativo crucial do nível de respeito na relação.



