Ex-banqueiro fala em R$ 30 milhões a filme de Lula, mas PF e PGR desmentem
Material divulgado pela Veja nesta sexta (9) gerou polêmica e é contestado por autoridades, advogados e campanha de Lula.

Um suposto áudio do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, divulgado pela revista Veja nesta sexta-feira (9), reacendeu um debate político ao alegar o pagamento de R$ 30 milhões em espécie para financiar um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No entanto, a versão foi veementemente negada pela Polícia Federal (PF), pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pelos próprios advogados de Vorcaro, enquanto a campanha de Lula classificou o relato como uma “farsa com objetivos eleitorais”.
A controvérsia surge em meio a tratativas de uma tentativa de delação premiada de Vorcaro, que, segundo a PF, foi recusada por ausência de elementos mínimos que pudessem dar credibilidade às suas afirmações. A PGR, por sua vez, informou que não houve depoimento oral do ex-banqueiro e que as negociações foram conduzidas exclusivamente por advogados, sem qualquer anexo formalizando o suposto financiamento do filme.
O que o áudio de Vorcaro teria revelado
De acordo com a reportagem da Veja, Daniel Vorcaro teria negociado o valor de R$ 30 milhões com Paulo Okamotto, responsável pela gestão do Instituto Lula. O montante seria destinado ao documentário “Lula (2024)”, do renomado cineasta Oliver Stone. A suposta intermediação, ainda conforme a revista, teria ocorrido por meio de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores (PT).
Um trecho do áudio anexado pela revista traz Vorcaro relatando as supostas intermediações: “Banco do Brasil a gente estruturou isso com ele [Vaccari]. É… O Augusto adianta ali para o Okamotto do Instituto Lula… E aí tem o negócio do filme também. O cara [Vaccari] pede para colocar dinheiro no filme do Lula”. A data exata da gravação, contudo, não foi esclarecida.
No mesmo áudio, o ex-banqueiro teria comparado o financiamento do filme de Lula com o patrocínio ao filme “Dark Horse”, sobre a vida de Jair Bolsonaro, que também teria recebido recursos do Master. Ele teria afirmado: “O filme do Lula eu coloquei acho que até mais [que o filme de Bolsonaro]. Eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal.”
PF, PGR e defesa de Vorcaro negam
Tanto a Polícia Federal quanto a Procuradoria-Geral da República desmentiram que o suposto relato sobre o financiamento do documentário tenha integrado formalmente as tratativas de colaboração premiada de Daniel Vorcaro. A PGR destacou em nota que “Todas as propostas formalizadas pela Defesa foram recebidas na forma como livremente elaboradas por ela, sem juízo nem recusas prévias. Não houve interlocução direta do senhor Vorcaro com qualquer representante da PGR”. Um integrante da PGR, ouvido em caráter reservado, afirmou ainda que o áudio em questão não foi enviado à equipe que negociava a delação.
Fontes próximas a Vorcaro confirmaram à CNN que a voz na gravação seria do ex-banqueiro, mas expressaram desconhecimento sobre a data e o método de registro do material. Elas levantaram a hipótese de uma gravação clandestina, citando uma possível distorção inicial no áudio. Além disso, afirmaram que o relato não fez parte de um depoimento formal às autoridades.
Os advogados de Daniel Vorcaro, Sérgio Leonardo e Engels Augusto Muniz, repudiaram a divulgação de supostos anexos relacionados a uma colaboração premiada que nunca foi efetivada. Em nota, eles declararam que “A defesa não confirma o conteúdo de qualquer material divulgado, cuja origem, autenticidade e integridade não são reconhecidas”. O advogado Daniel Bialski, que também o representa, acrescentou que “não prestou nenhum novo depoimento à Polícia Federal ou a qualquer outro órgão discorrendo sobre isso”, e ressaltou que o local de prisão de Vorcaro impede a entrada de equipamentos eletrônicos.
Reação do PT e comparação com filme de Bolsonaro
A campanha do presidente Lula repudiou as acusações, classificando o suposto depoimento como uma “farsa com objetivos eleitorais” e anunciando a intenção de adotar medidas judiciais. “Esse depoimento não existe, não há registro dele na Polícia Federal. Não há registro de delação com esse conteúdo que tenha sido aceita pelo Ministério Público e Polícia Federal. Portanto, uma farsa”, diz o comunicado. A coligação de Lula também questionou a publicação de acusações sem provas, levantando a possibilidade de uma articulação para beneficiar Flávio Bolsonaro na disputa presidencial.
Em maio de 2026, mensagens e gravações já haviam vindo à tona revelando negociações entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e Daniel Vorcaro para financiar “Dark Horse”, um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. As negociações, que envolviam US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões), eram para patrocínio da produção.
Nesta sexta-feira (9), Flávio Bolsonaro acusou Lula de ter recebido propina e comparou os dois episódios: “Esse cara recebeu propina. Então, o Bolsonaro pediu patrocínio e o Lula pediu propina”, declarou o senador, buscando diferenciar o financiamento do filme de seu pai, que ele descreveu como patrocínio privado sem contrapartida política, do suposto repasse irregular para o documentário de Lula.



