De roupa usada a tendência: a história por trás dos brechós
Você costuma comprar em brechós? O que antes era associado principalmente à economia e à necessidade de reaproveitar roupas hoje também faz parte das discussões sobre estilo, identidade e sustentabilidade.

Embora a palavra “brechó” tenha uma origem própria no português brasileiro, o comércio de artigos usados atravessa diferentes épocas e sociedades. Da história dos mercados de pulgas à expansão das plataformas digitais, conheça como a moda de segunda mão transformou a relação das pessoas com as roupas.
Desde a Antiguidade, a troca e a revenda de objetos fazem parte da circulação de mercadorias. Na Europa, os mercados de pulgas se consolidaram como espaços de comércio de antiguidades, roupas e outros artigos de segunda mão. Em Paris, o Marché aux Puces de Saint-Ouen tornou-se um dos exemplos mais conhecidos desse tipo de mercado, com origem associada ao século XIX.
Os brechós guardam semelhanças com os mercados de pulgas e os bazares, espaços onde é possível encontrar de tudo um pouco. Nesses lugares, aquilo que já não tinha tanta utilidade para uma pessoa podia ganhar uma nova importância na vida de outra.
A indústria da moda enfrenta um problema crescente de descarte. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o mundo gera cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano. Na Europa, a Agência Europeia do Ambiente estima que entre 4% e 9% dos produtos têxteis colocados no mercado sejam destruídos antes mesmo de serem usados.
O problema também é visível no Deserto do Atacama, no Chile. Um relatório conjunto da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e da Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa estima que depósitos ilegais de resíduos têxteis na região de Alto Hospicio ocupem cerca de 300 hectares, com aproximadamente 30 mil toneladas de resíduos acumulados na área estudada.
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Mulheres buscam roupas usadas em meio a descarte no deserto do Atacama, em Alto Hospicio, — Foto: Martin Bernetti/AFP
Os brechós também podem contribuir para enfrentar esse cenário, prolongando a vida útil das roupas e incentivando o reaproveitamento. Muito se engana quem pensa que esse movimento é recente. Apesar da popularidade nas redes sociais, a história do comércio de artigos usados é antiga.
Os brechós pelo mundo
A origem da palavra “brechó” é associada ao nome próprio Belchior, segundo registros lexicográficos. No Brasil, o termo passou a designar estabelecimentos que comercializam roupas e outros objetos usados.

Durante o século XX, especialmente em períodos de crise econômica, os padrões de consumo passaram por transformações. Com a Crise de 1929 e as dificuldades financeiras enfrentadas por muitas famílias, o reaproveitamento de roupas e outros produtos ganhou importância como alternativa para economizar. Nesse contexto, a compra de artigos usados atendia a uma necessidade prática: adquirir peças em condições de uso sem gastar tanto.
Avançando um pouco mais no tempo, na década de 1960, o movimento hippie questionava valores associados ao consumismo e aos padrões sociais dominantes, defendendo maior liberdade individual e outras formas de viver. As roupas usadas e as peças vintage também podiam funcionar como formas de expressão dessa identidade, permitindo que muitos hippies encontrassem peças que refletissem suas personalidades e seus valores.
Nos anos 2000, com a expansão da internet, a globalização e o aumento da produção de artigos de moda, o descarte precoce de roupas passou a fazer parte de discussões cada vez mais amplas. Nesse cenário, fortaleceu-se o sistema de fast fashion, modelo de produção e comercialização caracterizado pela oferta frequente de novas coleções e pela rápida renovação das tendências.
No novo milênio, ganhou força a discussão sobre uma contracorrente: a moda sustentável. Os brechós passaram a ocupar um espaço importante nesse debate, oferecendo uma alternativa para prolongar a vida útil das peças e repensar a relação entre consumo e descarte.

A pandemia de Covid-19 também contribuiu para ampliar a visibilidade do mercado de segunda mão. Em meio à crise econômica e à necessidade de controlar os gastos, a compra e a venda de produtos usados ganharam espaço no Brasil. Um levantamento do Sebrae, baseado em dados da Receita Federal, identificou um crescimento de 48,58% na abertura de estabelecimentos que comercializam artigos de segunda mão entre o primeiro semestre de 2020 e o mesmo período de 2021.
Nos Estados Unidos, o movimento também apareceu no consumo: segundo o relatório de revenda da ThredUp de 2022, 33 milhões de pessoas compraram roupas usadas pela primeira vez em 2020. Os dados ajudam a ilustrar como a pandemia coincidiu com a expansão desse mercado, em um período marcado por mudanças nos hábitos de consumo e pelo crescimento das compras online.
A mudança no mercado moderno
O mercado de roupas de segunda mão tem atraído empresas que enxergam na economia circular uma oportunidade de diversificar receitas e prolongar a vida útil dos produtos. No Brasil e no exterior, plataformas especializadas e grandes marcas têm investido em modelos de revenda que combinam tecnologia, curadoria e sustentabilidade.
Um dos exemplos nacionais é a TROC, fundada em 2016 e adquirida pela Arezzo&Co em 2020. A plataforma simplifica a comercialização de roupas usadas ao assumir etapas como triagem, fotografia, precificação e venda das peças. Com a aquisição, a iniciativa também passou a integrar a estratégia de economia circular do grupo, demonstrando como um brechó digital pode fazer parte da estrutura de um grande varejista.
Outro destaque brasileiro é a Etiqueta Única, especializada na compra e venda de artigos de luxo seminovos. A empresa trabalha com curadoria e autenticação de produtos de grifes nacionais e internacionais, oferecendo maior segurança aos consumidores que desejam adquirir peças de alto valor no mercado de segunda mão. Nesse segmento, a confiança na procedência dos artigos é um dos fatores que ajudam a viabilizar as transações.
No cenário internacional, a parceria entre a Gucci e a The RealReal, marketplace americano de artigos de luxo usados, exemplifica como uma marca tradicional pode participar desse mercado. Lançada em 2020, a colaboração criou uma loja virtual dedicada a produtos seminovos da grife. A iniciativa também incluiu uma ação ambiental que previa o plantio de uma árvore para cada compra ou consignação elegível de produtos Gucci nos Estados Unidos, durante um período promocional específico.
Com o avanço do mercado de moda circular, a Zara criou a Zara Pre-Owned, uma plataforma digital que permite aos usuários comprar e revender roupas usadas da própria marca, além de acessar serviços de reparo e doação.
A iniciativa busca prolongar a vida útil das roupas e atender consumidores interessados em alternativas à compra de peças novas. Essa estratégia de negócios mantém o relacionamento com os clientes mesmo depois da primeira venda, permitindo que a marca também participe do mercado de segunda mão. A disponibilidade dos serviços varia conforme o país, por isso é importante consultar a lista oficial de mercados atendidos antes de afirmar onde a plataforma está disponível.

Já a Patagonia, marca de roupas e equipamentos para atividades ao ar livre, desenvolveu a Worn Wear, programa que incentiva a reparação, a reutilização e a revenda de produtos usados. Além de comercializar peças de segunda mão, a iniciativa permite que clientes entreguem determinados itens elegíveis em troca de créditos para novas compras. O modelo procura prolongar a vida útil dos produtos e reduzir a necessidade de substituí-los prematuramente.
Embora atuem em segmentos distintos, esses exemplos demonstram como a revenda pode ultrapassar o conceito tradicional de brechó. Ao investir em plataformas digitais, serviços de autenticação, reparação e logística reversa, essas empresas encontram novas formas de relacionamento com os consumidores e de aproveitamento de produtos já fabricados.
A entrada de grandes marcas nesse mercado também revela uma mudança na percepção das roupas usadas. Se antes a compra de segunda mão era frequentemente associada à necessidade econômica, hoje ela também pode representar a busca por peças exclusivas, referências estéticas de outras épocas e novas formas de consumir moda. Essa transformação, porém, não elimina as diferenças entre comprar por necessidade, por preferência estética ou por preocupação ambiental.
A expansão desse mercado não significa que toda iniciativa de revenda seja automaticamente sustentável. Os benefícios ambientais dependem de fatores como transporte, embalagens e condições de reutilização, além de a compra de uma peça usada efetivamente substituir, ou não, a aquisição de um produto novo.
Mais do que uma tendência de consumo, o mercado de segunda mão representa uma mudança na maneira como empresas e consumidores atribuem valor às roupas: em vez de encerrar seu ciclo comercial na primeira venda, uma peça pode voltar ao mercado e gerar novas oportunidades de negócio.
Tecnologia e o futuro dos brechós digitais
O futuro dos brechós também será impactado pelos avanços da inteligência artificial. Novas ferramentas estão transformando a maneira como os consumidores procuram, comparam e encontram produtos de segunda mão, tornando a experiência de compra online mais personalizada.
A Beni, startup americana, desenvolveu uma extensão para navegadores que utiliza inteligência artificial para ajudar consumidores a encontrar versões de segunda mão de produtos que estão procurando. A ferramenta pesquisa em plataformas de revenda e sugere alternativas, facilitando a busca por peças semelhantes às disponíveis no varejo tradicional.
A tecnologia também vem transformando a experiência de compra nos brechós digitais. Em junho de 2026, a plataforma de revenda Depop e a empresa de moda digital DRESSX realizaram uma parceria que levou a experimentação virtual ao mercado de segunda mão. Durante o festival Governors Ball, em Nova York, os visitantes puderam combinar roupas e acessórios usados por meio de um espelho com inteligência artificial, visualizar os looks e acessar links para comprar as peças diretamente na plataforma. A seleção reuniu 300 produtos de vendedores da Depop, demonstrando como ferramentas digitais podem tornar a descoberta de roupas seminovas mais interativa e personalizada.
Essas iniciativas mostram que a tecnologia pode facilitar o encontro entre consumidores e peças usadas. Ao mesmo tempo, a expansão das ferramentas digitais levanta novas questões sobre o consumo: tornar a busca mais fácil pode incentivar o reaproveitamento, mas também pode estimular novas compras. O impacto depende de como essas ferramentas são utilizadas.

O crescimento digital e os brechós físicos
E como ficam os brechós físicos? Mesmo no mundo moderno, muitas pessoas ainda apostam na modalidade presencial, investindo na organização do espaço, na limpeza e no atendimento personalizado. A experiência de visitar uma loja permite observar os detalhes das peças, experimentar roupas e descobrir itens que talvez não fossem encontrados em uma busca online.
Com as redes sociais, os brechós físicos também ganharam novas oportunidades de crescimento. A publicação de stories, a produção de conteúdo relevante e a criação de lojas online ajudam a divulgar os produtos e a alcançar consumidores que não conseguem visitar o estabelecimento.
Sites como Enjoei, Mercado Livre e Shopee também se tornaram espaços de compra e venda de artigos usados, além das plataformas próprias de marcas e dos brechós digitais especializados. Essas opções ampliam o acesso ao mercado de segunda mão, conectando vendedores e compradores de diferentes regiões.
Dos mercados de trocas da Antiguidade às plataformas digitais do mundo moderno, o comércio de artigos usados passou por diversas transformações. Garimpar peças deixou de ser associado apenas à economia e passou a ocupar espaço nas discussões sobre estilo, identidade e consumo consciente.
Em abril de 2026, um relatório da ThredUp estimou que o mercado global de roupas de segunda mão poderá alcançar US$ 393 bilhões até 2030. Trata-se de uma projeção, não de um valor já alcançado, que ajuda a dimensionar as expectativas de crescimento desse setor.
Mais do que uma tendência, a moda circular propõe uma mudança na maneira como as roupas são produzidas, comercializadas e consumidas. Em vez de seguir um ciclo de compra e descarte, o modelo busca prolongar a vida útil das peças por meio da reutilização, da revenda, da reparação e, quando possível, da reciclagem dos materiais.
Nesse cenário, os brechós e marketplaces de segunda mão ganham relevância ao conectar consumidores e criar novas oportunidades comerciais a partir de produtos que já existem. Para as empresas, a revenda pode representar uma forma de diversificar receitas, fortalecer o relacionamento com o público e responder à crescente atenção dedicada ao impacto ambiental da indústria da moda.
Entretanto, a sustentabilidade não depende apenas de comprar roupas usadas. Também envolve reduzir o consumo desnecessário, valorizar a durabilidade e ampliar o aproveitamento dos recursos. Assim, a moda circular aponta para um futuro em que o valor de uma peça não se limita à primeira venda, mas também à sua capacidade de continuar sendo utilizada, compartilhada e reaproveitada ao longo do tempo.



