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De roupa usada a tendência: a história por trás dos brechós

Você costuma comprar em brechós? O que antes era associado principalmente à economia e à necessidade de reaproveitar roupas hoje também faz parte das discussões sobre estilo, identidade e sustentabilidade.

publicado em 22/10/2026 às 11:17

De roupa usada a tendência: a história por trás dos brechós
Crédito: Esta fotografia do Mercado de Pulgas de Saint-Ouen (Paris, França) foi tirada pela fotógrafa Cuchi White, meados de 1960.

Embora a palavra “brechó” tenha uma origem própria no português brasileiro, o comércio de artigos usados atravessa diferentes épocas e sociedades. Da história dos mercados de pulgas à expansão das plataformas digitais, conheça como a moda de segunda mão transformou a relação das pessoas com as roupas.

Desde a Antiguidade, a troca e a revenda de objetos fazem parte da circulação de mercadorias. Na Europa, os mercados de pulgas se consolidaram como espaços de comércio de antiguidades, roupas e outros artigos de segunda mão. Em Paris, o Marché aux Puces de Saint-Ouen tornou-se um dos exemplos mais conhecidos desse tipo de mercado, com origem associada ao século XIX.

Os brechós guardam semelhanças com os mercados de pulgas e os bazares, espaços onde é possível encontrar de tudo um pouco. Nesses lugares, aquilo que já não tinha tanta utilidade para uma pessoa podia ganhar uma nova importância na vida de outra.

A indústria da moda enfrenta um problema crescente de descarte. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o mundo gera cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano. Na Europa, a Agência Europeia do Ambiente estima que entre 4% e 9% dos produtos têxteis colocados no mercado sejam destruídos antes mesmo de serem usados.

O problema também é visível no Deserto do Atacama, no Chile. Um relatório conjunto da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e da Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa estima que depósitos ilegais de resíduos têxteis na região de Alto Hospicio ocupem cerca de 300 hectares, com aproximadamente 30 mil toneladas de resíduos acumulados na área estudada.

Mulheres buscam roupas usadas em meio a descarte no deserto do Atacama, em Alto Hospicio,  — Foto: Martin Bernetti/AFP

Mulheres buscam roupas usadas em meio a descarte no deserto do Atacama, em Alto Hospicio, — Foto: Martin Bernetti/AFP

Os brechós também podem contribuir para enfrentar esse cenário, prolongando a vida útil das roupas e incentivando o reaproveitamento. Muito se engana quem pensa que esse movimento é recente. Apesar da popularidade nas redes sociais, a história do comércio de artigos usados é antiga.

Os brechós pelo mundo

A origem da palavra “brechó” é associada ao nome próprio Belchior, segundo registros lexicográficos. No Brasil, o termo passou a designar estabelecimentos que comercializam roupas e outros objetos usados.

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Durante o século XX, especialmente em períodos de crise econômica, os padrões de consumo passaram por transformações. Com a Crise de 1929 e as dificuldades financeiras enfrentadas por muitas famílias, o reaproveitamento de roupas e outros produtos ganhou importância como alternativa para economizar. Nesse contexto, a compra de artigos usados atendia a uma necessidade prática: adquirir peças em condições de uso sem gastar tanto.

Avançando um pouco mais no tempo, na década de 1960, o movimento hippie questionava valores associados ao consumismo e aos padrões sociais dominantes, defendendo maior liberdade individual e outras formas de viver. As roupas usadas e as peças vintage também podiam funcionar como formas de expressão dessa identidade, permitindo que muitos hippies encontrassem peças que refletissem suas personalidades e seus valores.

Nos anos 2000, com a expansão da internet, a globalização e o aumento da produção de artigos de moda, o descarte precoce de roupas passou a fazer parte de discussões cada vez mais amplas. Nesse cenário, fortaleceu-se o sistema de fast fashion, modelo de produção e comercialização caracterizado pela oferta frequente de novas coleções e pela rápida renovação das tendências.

No novo milênio, ganhou força a discussão sobre uma contracorrente: a moda sustentável. Os brechós passaram a ocupar um espaço importante nesse debate, oferecendo uma alternativa para prolongar a vida útil das peças e repensar a relação entre consumo e descarte.

A pandemia de Covid-19 também contribuiu para ampliar a visibilidade do mercado de segunda mão. Em meio à crise econômica e à necessidade de controlar os gastos, a compra e a venda de produtos usados ganharam espaço no Brasil. Um levantamento do Sebrae, baseado em dados da Receita Federal, identificou um crescimento de 48,58% na abertura de estabelecimentos que comercializam artigos de segunda mão entre o primeiro semestre de 2020 e o mesmo período de 2021.

Nos Estados Unidos, o movimento também apareceu no consumo: segundo o relatório de revenda da ThredUp de 2022, 33 milhões de pessoas compraram roupas usadas pela primeira vez em 2020. Os dados ajudam a ilustrar como a pandemia coincidiu com a expansão desse mercado, em um período marcado por mudanças nos hábitos de consumo e pelo crescimento das compras online.

A mudança no mercado moderno

O mercado de roupas de segunda mão tem atraído empresas que enxergam na economia circular uma oportunidade de diversificar receitas e prolongar a vida útil dos produtos. No Brasil e no exterior, plataformas especializadas e grandes marcas têm investido em modelos de revenda que combinam tecnologia, curadoria e sustentabilidade.

Um dos exemplos nacionais é a TROC, fundada em 2016 e adquirida pela Arezzo&Co em 2020. A plataforma simplifica a comercialização de roupas usadas ao assumir etapas como triagem, fotografia, precificação e venda das peças. Com a aquisição, a iniciativa também passou a integrar a estratégia de economia circular do grupo, demonstrando como um brechó digital pode fazer parte da estrutura de um grande varejista.

Outro destaque brasileiro é a Etiqueta Única, especializada na compra e venda de artigos de luxo seminovos. A empresa trabalha com curadoria e autenticação de produtos de grifes nacionais e internacionais, oferecendo maior segurança aos consumidores que desejam adquirir peças de alto valor no mercado de segunda mão. Nesse segmento, a confiança na procedência dos artigos é um dos fatores que ajudam a viabilizar as transações.

No cenário internacional, a parceria entre a Gucci e a The RealReal, marketplace americano de artigos de luxo usados, exemplifica como uma marca tradicional pode participar desse mercado. Lançada em 2020, a colaboração criou uma loja virtual dedicada a produtos seminovos da grife. A iniciativa também incluiu uma ação ambiental que previa o plantio de uma árvore para cada compra ou consignação elegível de produtos Gucci nos Estados Unidos, durante um período promocional específico.

Com o avanço do mercado de moda circular, a Zara criou a Zara Pre-Owned, uma plataforma digital que permite aos usuários comprar e revender roupas usadas da própria marca, além de acessar serviços de reparo e doação.

A iniciativa busca prolongar a vida útil das roupas e atender consumidores interessados em alternativas à compra de peças novas. Essa estratégia de negócios mantém o relacionamento com os clientes mesmo depois da primeira venda, permitindo que a marca também participe do mercado de segunda mão. A disponibilidade dos serviços varia conforme o país, por isso é importante consultar a lista oficial de mercados atendidos antes de afirmar onde a plataforma está disponível.

Já a Patagonia, marca de roupas e equipamentos para atividades ao ar livre, desenvolveu a Worn Wear, programa que incentiva a reparação, a reutilização e a revenda de produtos usados. Além de comercializar peças de segunda mão, a iniciativa permite que clientes entreguem determinados itens elegíveis em troca de créditos para novas compras. O modelo procura prolongar a vida útil dos produtos e reduzir a necessidade de substituí-los prematuramente.

Embora atuem em segmentos distintos, esses exemplos demonstram como a revenda pode ultrapassar o conceito tradicional de brechó. Ao investir em plataformas digitais, serviços de autenticação, reparação e logística reversa, essas empresas encontram novas formas de relacionamento com os consumidores e de aproveitamento de produtos já fabricados.

A entrada de grandes marcas nesse mercado também revela uma mudança na percepção das roupas usadas. Se antes a compra de segunda mão era frequentemente associada à necessidade econômica, hoje ela também pode representar a busca por peças exclusivas, referências estéticas de outras épocas e novas formas de consumir moda. Essa transformação, porém, não elimina as diferenças entre comprar por necessidade, por preferência estética ou por preocupação ambiental.

A expansão desse mercado não significa que toda iniciativa de revenda seja automaticamente sustentável. Os benefícios ambientais dependem de fatores como transporte, embalagens e condições de reutilização, além de a compra de uma peça usada efetivamente substituir, ou não, a aquisição de um produto novo.

Mais do que uma tendência de consumo, o mercado de segunda mão representa uma mudança na maneira como empresas e consumidores atribuem valor às roupas: em vez de encerrar seu ciclo comercial na primeira venda, uma peça pode voltar ao mercado e gerar novas oportunidades de negócio.

Tecnologia e o futuro dos brechós digitais

O futuro dos brechós também será impactado pelos avanços da inteligência artificial. Novas ferramentas estão transformando a maneira como os consumidores procuram, comparam e encontram produtos de segunda mão, tornando a experiência de compra online mais personalizada.

A Beni, startup americana, desenvolveu uma extensão para navegadores que utiliza inteligência artificial para ajudar consumidores a encontrar versões de segunda mão de produtos que estão procurando. A ferramenta pesquisa em plataformas de revenda e sugere alternativas, facilitando a busca por peças semelhantes às disponíveis no varejo tradicional.

A tecnologia também vem transformando a experiência de compra nos brechós digitais. Em junho de 2026, a plataforma de revenda Depop e a empresa de moda digital DRESSX realizaram uma parceria que levou a experimentação virtual ao mercado de segunda mão. Durante o festival Governors Ball, em Nova York, os visitantes puderam combinar roupas e acessórios usados por meio de um espelho com inteligência artificial, visualizar os looks e acessar links para comprar as peças diretamente na plataforma. A seleção reuniu 300 produtos de vendedores da Depop, demonstrando como ferramentas digitais podem tornar a descoberta de roupas seminovas mais interativa e personalizada.

Essas iniciativas mostram que a tecnologia pode facilitar o encontro entre consumidores e peças usadas. Ao mesmo tempo, a expansão das ferramentas digitais levanta novas questões sobre o consumo: tornar a busca mais fácil pode incentivar o reaproveitamento, mas também pode estimular novas compras. O impacto depende de como essas ferramentas são utilizadas.

O crescimento digital e os brechós físicos

E como ficam os brechós físicos? Mesmo no mundo moderno, muitas pessoas ainda apostam na modalidade presencial, investindo na organização do espaço, na limpeza e no atendimento personalizado. A experiência de visitar uma loja permite observar os detalhes das peças, experimentar roupas e descobrir itens que talvez não fossem encontrados em uma busca online.

Com as redes sociais, os brechós físicos também ganharam novas oportunidades de crescimento. A publicação de stories, a produção de conteúdo relevante e a criação de lojas online ajudam a divulgar os produtos e a alcançar consumidores que não conseguem visitar o estabelecimento.

Sites como Enjoei, Mercado Livre e Shopee também se tornaram espaços de compra e venda de artigos usados, além das plataformas próprias de marcas e dos brechós digitais especializados. Essas opções ampliam o acesso ao mercado de segunda mão, conectando vendedores e compradores de diferentes regiões.

Dos mercados de trocas da Antiguidade às plataformas digitais do mundo moderno, o comércio de artigos usados passou por diversas transformações. Garimpar peças deixou de ser associado apenas à economia e passou a ocupar espaço nas discussões sobre estilo, identidade e consumo consciente.

Em abril de 2026, um relatório da ThredUp estimou que o mercado global de roupas de segunda mão poderá alcançar US$ 393 bilhões até 2030. Trata-se de uma projeção, não de um valor já alcançado, que ajuda a dimensionar as expectativas de crescimento desse setor.

Mais do que uma tendência, a moda circular propõe uma mudança na maneira como as roupas são produzidas, comercializadas e consumidas. Em vez de seguir um ciclo de compra e descarte, o modelo busca prolongar a vida útil das peças por meio da reutilização, da revenda, da reparação e, quando possível, da reciclagem dos materiais.

Nesse cenário, os brechós e marketplaces de segunda mão ganham relevância ao conectar consumidores e criar novas oportunidades comerciais a partir de produtos que já existem. Para as empresas, a revenda pode representar uma forma de diversificar receitas, fortalecer o relacionamento com o público e responder à crescente atenção dedicada ao impacto ambiental da indústria da moda.

Entretanto, a sustentabilidade não depende apenas de comprar roupas usadas. Também envolve reduzir o consumo desnecessário, valorizar a durabilidade e ampliar o aproveitamento dos recursos. Assim, a moda circular aponta para um futuro em que o valor de uma peça não se limita à primeira venda, mas também à sua capacidade de continuar sendo utilizada, compartilhada e reaproveitada ao longo do tempo.

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