Entre gerações: como o Siriri e o Cururu mantêm viva a memória cultural de Mato Grosso
Mato Grosso abriga muitas tradições seculares, passadas de geração em geração por seus mestres. Nascida aqui, a viola de cocho ganha destaque entre outros instrumentos nas tradicionais festas de comunidades ao longo do Rio Cuiabá.

As raízes do siriri e do cururu
Embora estejam sempre juntos em movimentos culturais centrados na Baixada Cuiabana, são distintos. O cururu é uma manifestação folclórica constituída de dança e música, com variações pelos estados de São Paulo, Goiás e, principalmente, Mato Grosso.

Imagem por Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
A forma como o cururu é expressada nos dias atuais é tipicamente ritualística, e seu objetivo principal é a substituição da liturgia católica nas festas de santos das zonas rurais. No cururu, os músicos, em dupla ou em grupos maiores, cantam, dançando ou não, para desafiar outra dupla. A música é composta pelas violas de cocho e pelos ganzás, com trovos, carreiras e toadas sobre os comandos de rituais sagrados, religião, assuntos do dia a dia dos moradores e outros temas, cantadas com uma entonação anasalada, muito difícil de ser entendida por quem não é da região.
Já o siriri, ciriri ou siriá é uma dança folclórica que reflete as raízes e a diversidade cultural do estado, sendo resultado da fusão de influências africanas, indígenas e europeias. A manifestação reflete a alegria e a diversidade da região, levado adiante por grupos folclóricos que preservam essa herança, principalmente em celebrações e festas interioranas, bem como em celebrações em homenagem a santos, bailes, carnaval e, atualmente, em apresentações turísticas, eventos políticos e festivais culturais.
Mais do que uma dança, o siriri funciona como um meio de transmitir conhecimentos, histórias e valores por gerações. Dessa forma, fortalece o senso de identidade e coesão social. O siriri contribui para a preservação das tradições locais e incentiva a participação da juventude na cultura regional.
Os caminhos para manter viva a tradição
Os grupos folclóricos da Baixada Cuiabana se apresentam nos festivais de siriri e cururu em diversas regiões do estado, do país e até em outros países.
Durante os eventos, os participantes demonstram a riqueza cultural por meio da música, da dança e dos trajes típicos, criando um ambiente de fortalecimento das tradições cuiabanas.
Os festivais de siriri e cururu desempenham um papel fundamental para levar o conhecimento entre gerações, o que estimula o envolvimento dos jovens na preservação dessa identidade cultural e fortalece o sentimento de pertencimento à tradição cuiabana.
Para manter as tradições entre as novas gerações, seis grupos cuiabanos se destacam:
Grupo Folclórico Viola de Cocho
Grupo Folclórico Flor do Campo
Grupo Folclórico Flor Ribeirinha
Grupo Folclórico Flor de Atalaia
Grupo Folclórico Raízes Cuiabanas
Grupo Folclórico Voa Tuiuiú
O grupo Flor Ribeirinha se destaca ao levar a cultura mato-grossense para o cenário global. Fundado em 27 de julho de 1993, na Comunidade São Gonçalo Beira Rio, às margens do Rio Cuiabá (distrito do Coxipó da Ponte), o grupo carrega na bagagem o título de campeão do 27º Festival Internacional de Danças Folclóricas de Büyükçekmece, na Turquia.

Imagem por Flor Ribeirinha
O futuro do siriri e do cururu em debate
As mudanças de hábitos culturais, o excesso de redes sociais e a preferência por outras formas de entretenimento dificultam a aproximação de crianças e jovens das manifestações culturais. O maior desafio é fazer com que a nova geração não apenas assista às apresentações, mas também aprenda os cantos, os passos, os instrumentos e o grande significado das práticas da tradição cuiabana.
Além disso, o cururu tem a particularidade de ser uma tradição fortemente oral, marcada pelos cantos, pela viola de cocho, pelos versos improvisados e pelos conhecimentos dos cururueiros. Quando os mestres envelhecem e não encontram aprendizes para dar continuidade à tradição, parte desse patrimônio imaterial pode se perder.
A urbanização, a migração, as mudanças nas rotinas de trabalho e a redução dos momentos de convivência comunitária podem afetar as ocasiões em que essas tradições são praticadas.
O futuro do siriri e do cururu passa pelas novas gerações. É no contato entre mestres, jovens e comunidades que os conhecimentos tradicionais encontram caminhos para continuar existindo. Garantir esse encontro é permitir que as próximas gerações não apenas conheçam essas manifestações, mas também reconheçam nelas uma parte importante de sua própria história.



