Pantanal: uma cultura que resiste ao tempo
Entre os ciclos das águas, a memória dos povos tradicionais e os costumes transmitidos entre gerações, a cultura pantaneira revela a riqueza da identidade regional.

O Pantanal é vivo. Muito além das paisagens alagadas e das imagens de peões conduzindo o gado, a maior planície alagável tropical do mundo abriga uma riqueza cultural construída por diferentes povos, tradições e modos de vida. Ela está presente nos conhecimentos transmitidos entre gerações, nas festas populares, nos instrumentos musicais, nas receitas de família, nas histórias contadas de boca em boca e na relação das comunidades com o território.
A cultura pantaneira é resultado de uma pluralidade de influências indígenas, africanas, europeias e fronteiriças, que se manifestam de diferentes maneiras em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Essa diversidade não forma uma identidade única e imutável, mas um conjunto de costumes e saberes que se transformam ao longo do tempo, acompanhando as mudanças sociais e ambientais da região.
A memória e os saberes tradicionais
A tradição oral ocupa um lugar importante na preservação da cultura pantaneira. Lendas, benzeções, simpatias, lembranças familiares e narrativas sobre a vida cotidiana fazem parte da memória de diferentes comunidades. Esses conhecimentos, transmitidos principalmente pela convivência e pela oralidade, revelam maneiras de compreender o mundo e enfrentar as dificuldades da vida.
A medicina caseira, por exemplo, integra a memória de muitas famílias pantaneiras. O uso de plantas, os chás, as receitas tradicionais e os benzimentos refletem conhecimentos construídos a partir da experiência e das crenças populares. Embora essas práticas tenham valor cultural, não substituem tratamentos médicos comprovados.
O conhecimento sobre a natureza também faz parte dessa herança. A observação das chuvas, das cheias, das secas, dos animais e da vegetação contribuiu para desenvolver formas de adaptação ao ambiente. Com o avanço tecnológico e as mudanças no cotidiano, algumas práticas podem perder espaço, enquanto outras são ressignificadas pelas novas gerações.

O Pantanal e seus arredores também são territórios ancestrais de diferentes povos indígenas, entre eles Guató, Kadiwéu e Terena, além de outros povos presentes na região ampliada. Suas histórias, línguas, conhecimentos e tradições integram a diversidade cultural do território e permanecem vivos no presente. Reconhecer essa participação é fundamental para compreender a formação regional sem reduzir os povos indígenas a uma herança do passado.
A pecuária e a vida nas comitivas
A pecuária extensiva marcou a história econômica e social de grande parte do Pantanal. Adaptada às características de uma região sujeita a períodos de cheia e seca, a criação de gado contribuiu para desenvolver práticas de trabalho, conhecimentos sobre o território e formas de organização que também passaram a integrar o imaginário cultural pantaneiro.
Entre as expressões mais conhecidas dessa tradição estão as comitivas, grupos de trabalhadores responsáveis por conduzir o gado por trajetos que podem atravessar grandes extensões rurais. O trabalho exige experiência no manejo dos animais, conhecimento dos caminhos e compreensão das condições do terreno.

Além da atividade econômica, as comitivas carregam uma dimensão social. A divisão de tarefas, as histórias compartilhadas durante as viagens, as refeições e as relações de companheirismo compõem a experiência desses trabalhadores. São conhecimentos aprendidos na prática e frequentemente transmitidos entre gerações.
A história da pecuária regional também está ligada ao cavalo pantaneiro, adaptado ao ambiente ao longo de gerações e importante para o transporte e o manejo dos rebanhos. Outro exemplo é o bovino pantaneiro, conhecido popularmente como tucura, descendente de animais introduzidos durante a colonização e adaptado às condições locais. A conservação dessa raça representa parte da memória histórica e genética da pecuária regional.
O som que ecoa pelo Pantanal
Entre os símbolos mais reconhecidos da tradição boiadeira está o berrante. Tradicionalmente confeccionado com chifres bovinos, o instrumento de sopro é utilizado para emitir sinais sonoros durante a condução do gado e se tornou parte da identidade cultural associada às comitivas.
Seus toques podem ter diferentes finalidades, variando conforme a região e os costumes de cada grupo. Para dominá-lo, o tocador precisa desenvolver habilidades de respiração e controle do sopro, conhecimentos que muitas vezes são transmitidos pela convivência com outros berranteiros.
Mais do que um instrumento de trabalho, o berrante representa a memória de um modo de vida. Seu som remete às estradas rurais, à condução dos rebanhos e às histórias de quem construiu sua trajetória no campo.
Essa tradição também revela transformações sociais. A história de Ramona Vieira, criada no Pantanal e trabalhadora de comitivas, demonstra como as mulheres também participam da preservação desses conhecimentos, ocupando espaços historicamente associados aos homens.

A gastronomia como expressão cultural
A culinária pantaneira também conta a história de seus habitantes. Influenciada pela disponibilidade de ingredientes, pelos costumes familiares e pelas trocas culturais com outras regiões do Brasil, a alimentação reúne tradições ligadas à pesca, à pecuária e à vida rural.
O consumo de peixes de água doce, como pacu e pintado, integra a culinária de diferentes localidades. Preparações com carne bovina e arroz também fazem parte do repertório alimentar regional. O arroz carreteiro, por exemplo, está associado à tradição de trabalhadores que precisavam preparar refeições práticas durante deslocamentos e jornadas de trabalho.
Nas comitivas, a organização das refeições era parte importante da rotina. O preparo dos alimentos exigia planejamento, aproveitamento dos ingredientes e utensílios adequados às condições da viagem. Receitas como o macarrão de comitiva também aparecem em relatos sobre a alimentação tradicional dos trabalhadores rurais.
As influências fronteiriças ampliam esse repertório. A proximidade com o Paraguai e a Bolívia favoreceu trocas culinárias, embora a origem e o significado de cada prato precisem ser considerados em seus contextos específicos.
Mais do que uma lista de comidas típicas, a gastronomia permite compreender histórias familiares, relações de trabalho e formas de convivência. Receitas transmitidas entre gerações preservam lembranças e ajudam a manter vínculos com o território.
A cultura ribeirinha e a relação com os rios
Os rios são parte fundamental da vida de diversas comunidades pantaneiras. Para moradores ribeirinhos, eles podem representar caminhos de deslocamento, fonte de alimento, espaço de trabalho e lugar de convivência. A relação com as águas também influencia conhecimentos sobre pesca, navegação e reconhecimento das mudanças na paisagem.
A pesca artesanal, por exemplo, envolve saberes transmitidos entre gerações, como a identificação de espécies, a escolha de equipamentos e a observação das condições do rio. Esses conhecimentos se relacionam não apenas à subsistência, mas também à memória familiar e à identidade comunitária.
A vida ribeirinha, contudo, não é igual em todo o Pantanal. As condições de acesso, as atividades econômicas e os costumes variam conforme a localidade. Por isso, ouvir os próprios moradores é essencial para compreender como cada comunidade constrói sua relação com o território.
As mudanças no regime das águas, as secas extremas e os incêndios podem afetar atividades cotidianas e modos de vida. Investigar essas transformações permite compreender os desafios enfrentados por comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais, sem deixar de reconhecer sua capacidade de adaptação e seus conhecimentos tradicionais.

Entre a tradição e o futuro
A cultura pantaneira não se limita à pecuária, às comitivas ou à imagem do homem a cavalo. Ela também está nas manifestações indígenas, nas comunidades quilombolas, nos saberes ribeirinhos, nas festas populares, no artesanato, na música e nas histórias que continuam sendo compartilhadas.
Preservar esse patrimônio significa reconhecer as pessoas que mantêm essas práticas vivas e garantir espaço para que seus conhecimentos sejam transmitidos, transformados e valorizados. Também exige compreender que tradição não significa imobilidade: a cultura se modifica à medida que as comunidades enfrentam novos desafios e constroem outras formas de expressar sua identidade.
Entre as águas, os campos e as memórias de seus habitantes, o Pantanal revela uma riqueza que vai além da paisagem. Sua cultura está nas experiências de quem vive o território, nos saberes que atravessam gerações e nas histórias que continuam a dar sentido à identidade regional.



