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Uma família, um voto: a nova face do conservadorismo americano

Em meio às eleições de meio de mandato, movimento ultraconservador prega a submissão feminina e o voto familiar.

publicado em 19/10/2026 às 07:00
atualizado há cerca de 2 horas

Uma família, um voto: a nova face do conservadorismo americano
Crédito: Influenciadora digital conservadora norte-americana Savannah Stone, de 21 anos. - Foto: Reprodução/redes sociais

As discussões sobre o direito ao voto feminino têm dominado as redes sociais desde o primeiro turno das eleições, em 4 de outubro. O assunto reacendeu após a eleição de Eduarda Campopiano, a deputada estadual mais votada em São Paulo, que se define como “inimiga das feministas”.

Por aqui, o fenômeno pode parecer novidade, mas, nos Estados Unidos, o movimento tem ganhado visibilidade.

O termo tradwife vem da junção das palavras inglesas traditional (tradicional) e wife (esposa). Embora tenha ganhado visibilidade com as redes sociais, o ideal de feminilidade que representa existe há décadas. Na contemporaneidade, o movimento ganhou força nas plataformas digitais. Em uma entrevista à BBC, em 2020, a britânica Alena Pettitt, conhecida por adotar esse estilo de vida, descreveu sua postura como “submeter-se e mimar meu marido como se fosse 1959”.

A visibilidade das tradwives acompanha a expansão de discursos ultraconservadores nos Estados Unidos. As redes sociais são um dos principais canais de divulgação do movimento: nelas, essas mulheres compartilham suas rotinas domésticas, seus valores e suas opiniões políticas, atuando também como influenciadoras digitais.

Ao enfatizarem as diferenças biológicas entre homens e mulheres, as tradwives defendem, em diferentes graus, papéis de gênero tradicionais, que estabelecem uma divisão entre a vida pública e a privada. Nessa concepção, os homens ocupam posições de autoridade social e política, enquanto as mulheres são associadas ao espaço doméstico, ao casamento e à maternidade.

A continuidade do patriarcado — e, por extensão, do heteropatriarcado — sustenta o “sistema social, político e econômico no qual homens heterossexuais são o grupo dominante em uma sociedade ou cultura” (Kelley e Arce-Trigatti, 2021).

Paralelamente à defesa de papéis tradicionais de gênero, as ideologias de direita adotadas por algumas dessas mulheres são associadas a valores como liberdade individual, intervenção limitada do Estado na economia, nacionalismo, valorização da família nuclear e oposição ao aborto. Em vertentes mais extremas, presentes em determinados círculos do movimento, também aparecem discursos antifeministas, ant LGBTQIA+, antissemitas, xenófobos, anti-imigração e de supremacia racial ou étnica.

A menos de um mês das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, algumas influenciadoras têm defendido que as mulheres abram mão do direito individual ao voto e deixem a decisão política a cargo dos maridos.

Com cerca de 800 mil seguidores, a influenciadora Savannah Stone, de 21 anos, é apontada como uma das vozes desse segmento do movimento tradwife. Ela se posiciona a favor da submissão feminina e do chamado “voto familiar”, modelo no qual o chefe da família representa os demais integrantes nas decisões eleitorais.

A proposta contrasta com a trajetória histórica do sufrágio feminino nos Estados Unidos, cujo marco nacional foi a ratificação da 19ª Emenda à Constituição, em 1920. O debate ocorre em um cenário político marcado pelo fortalecimento de setores conservadores após as eleições presidenciais de 2024, que reconduziram Donald Trump à Casa Branca.

Casada há dois anos, Savannah participou da Cúpula de Liderança Feminina, realizada em junho, no Texas, pelo grupo conservador Turning Point USA, que mobiliza jovens em torno de pautas alinhadas ao movimento MAGA, sigla de Make America Great Again — “Tornar a América Grande Novamente”, em tradução livre.

Charlie Kirk, fundador da Turning Point USA, foi assassinado em setembro de 2025. Ele defendia que as mulheres buscassem um “diploma de esposa”. Sua viúva, Erika Kirk, assumiu a liderança da organização e passou a dar continuidade ao trabalho de mobilização de jovens conservadores.

“O feminismo é a maior mentira que já nos contaram enquanto mulheres. É um movimento financiado pelas pessoas mais ricas e perversas, com o objetivo de destruir o casamento e a família”, afirmou Savannah Stone.

A influenciadora dirige a comunidade digital The Submissive Society, na qual ensina mulheres a se comportarem diante dos maridos segundo um modelo de feminilidade inspirado na figura da dona de casa tradicional dos anos 1950.

A contradição está no fato de que Savannah, embora defenda um modelo familiar no qual o marido é o principal provedor, também atua como empreendedora e monetiza a divulgação de suas ideias nas redes sociais.

Em um dos vídeos que viralizaram, ela questiona: “Você já tentou usar um vestido de verão e preparar a comida favorita dele? Você já tentou realmente ouvi-lo quando ele fala? Já tentou ficar feliz e contente quando ele chega em casa, em vez de ficar reclamando? Já tentou manter a casa limpa para que seja um santuário para ele voltar e não mais um caos?”.

Stone afirma que abriria mão do direito ao voto sem hesitação e que pretende fazê-lo nas próximas eleições de meio de mandato. Ela integrou a campanha de reeleição de Trump, mas diz estar decepcionada com o presidente. “Ele deu a entender que tudo ia ficar mais acessível; agora a economia está pior. Ele prometeu que não haveria mais guerras no Oriente Médio e estamos em guerra”, declarou.

A influenciadora defende a ideia de “uma família, um voto” e a revogação da 19ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, medida que retiraria a proteção constitucional ao direito de voto das mulheres. Para que uma emenda constitucional seja revogada, seria necessário o apoio de dois terços de cada Casa do Congresso e a ratificação de três quartos dos estados americanos.

A proposta de representação eleitoral por domicílio também aparece nas ideias do pastor e teólogo Doug Wilson, que dirige a Comunhão de Igrejas Evangélicas Reformadas e defende papéis tradicionais de gênero e a submissão feminina. Em fevereiro, Wilson celebrou um culto no Pentágono a convite do secretário de Defesa, Pete Hegseth, frequentador de sua congregação em Washington.

O Pastor Doug Wilson discursa na Conferência Nacional de Conservadorismo, em 4 de setembro de 2025, em Washington. (Foto RNS/Jack Jenkins)

Wilson defende que as eleições em seu meio religioso sigam um sistema de votação por domicílio. Na prática, o chefe da família representa os demais integrantes e decide o voto do grupo. Segundo relatos sobre o modelo adotado em sua comunidade religiosa, a representação não é necessariamente restrita aos homens, embora, em famílias tradicionais, eles tendam a ocupar essa posição.

Por enquanto, a adoção desse sistema em eleições civis nacionais é uma proposta marginal, mas o debate repercute em determinados ambientes ultraconservadores.

As tradwives também comercializam uma imagem idealizada da vida doméstica, frequentemente inspirada na estética dos anos 1950. Por meio de perfis cuidadosamente construídos, essas influenciadoras apresentam suas visões sobre beleza, heteronormatividade, cuidados domésticos, maternidade e política conservadora, transformando o cotidiano em conteúdo digital.

Tanto Savannah Stone quanto Doug Wilson ajudam a ilustrar como discursos sobre autoridade masculina e papéis tradicionais de gênero circulam em diferentes espaços, das redes sociais às instituições religiosas. Nesse contexto, o debate sobre o voto familiar coloca em evidência uma questão histórica: até que ponto a valorização de modelos tradicionais de família pode entrar em conflito com a autonomia individual e a participação política das mulheres?

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