Carne mais cara em 2027: fim do 6x1 pode derrubar produção e custos, alerta ABPA
Setor de aves e suínos enfrenta mais de 20 mil vagas em aberto e vê repasse de preços ao consumidor

O fim da escala de trabalho 6x1, que entrará em vigor em janeiro de 2027, poderá resultar em aumento nos preços das carnes de frango e suína nas prateleiras dos supermercados brasileiros. O alerta foi emitido hoje por Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que apontou dificuldades na capacidade produtiva e na gestão de mais de 20 mil vagas de trabalho abertas no setor, em entrevista à CNN Brasil durante a feira Sial Paris 2026.
Em termos práticos, Santin enfatizou que os efeitos da mudança na legislação trabalhista serão sentidos diretamente pelo consumidor. "Quando dá o preço final lá na prateleira, a partir de janeiro já deve sentir esse efeito, porque é um efeito inevitável", declarou o dirigente à emissora. Este cenário sublinha a preocupação da indústria com a reorganização de processos.
Um dos fatores centrais para essa projeção é a persistente escassez de mão de obra. O dirigente da ABPA informou que a indústria de aves e suínos acumula, atualmente, mais de 20 mil vagas de trabalho em aberto. A dificuldade em preencher esses postos compromete a capacidade operacional das empresas, especialmente diante da necessidade de se ajustar à nova jornada.
O mecanismo por trás dessa potencial pressão sobre os preços reside na possível redução da produção. De acordo com a estimativa apresentada por Santin, parte das indústrias poderá ter uma queda de cerca de 5% em sua capacidade produtiva, caso não consigam contratar novos funcionários ou otimizar suas operações para compensar a diminuição das horas trabalhadas por equipe.
Adicionalmente, outra alternativa para manter o volume de produção seria o recurso ao pagamento de horas extras. No entanto, essa medida eleva os custos operacionais de forma significativa. Os indicadores apontam para um cenário em que parte dessas despesas adicionais seria, inevitavelmente, repassada aos consumidores, impactando o custo final da proteína animal.
O desafio é amplificado pelas rigorosas exigências sanitárias, ambientais e de bem-estar animal que os frigoríficos devem cumprir. Santin destacou que a redução das equipes pode afetar diretamente o funcionamento das linhas de abate e processamento, exigindo uma complexa reorganização da mão de obra para que as empresas mantenham a conformidade legal e operacional.
A ABPA, por sua vez, garantiu que cumprirá a nova legislação, mas defende um período mais extenso de adaptação às regras. A entidade avalia que a transição exige um planejamento estratégico aprofundado para mitigar perdas de produtividade e prevenir eventuais dificuldades no abastecimento do mercado interno.
O impacto direto sobre os preços, contudo, dependerá da capacidade individual de cada empresa em se adaptar, seja contratando mais trabalhadores, seja reorganizando seus turnos de forma eficiente para sustentar o volume de produção. Até o momento, a associação não divulgou uma estimativa consolidada do efeito da medida sobre a inflação geral. A preocupação de fundo é que a combinação de falta de mão de obra, redução da jornada e aumento de custos crie uma pressão considerável sobre os preços da proteína animal, com reflexos no orçamento das famílias brasileiras.



