Logo
Educação financeira

Pais enfrentam desafios para ensinar filhos sobre dinheiro

Pesquisa revela que investimentos e compras digitais são pontos sensíveis; especialistas e famílias dão dicas de como abordar o tema.

publicado em 19/10/2026 às 22:26
atualizado há cerca de 1 hora

Pais enfrentam desafios para ensinar filhos sobre dinheiro
Crédito: Reprodução / Internet

Ensinar crianças a lidar com dinheiro é um desafio para muitos pais, que se veem diante de conceitos complexos como juros, investimentos e o crescente impacto das compras digitais. Uma pesquisa recente da Serasa, em parceria com a Opinion Box, aponta que 28% dos entrevistados consideram investimentos o assunto mais difícil de explicar aos filhos. Diante deste cenário, famílias buscam estratégias lúdicas, enquanto especialistas oferecem orientações para desenvolver hábitos financeiros saudáveis desde cedo.

O bancário eSilas Gabriel, por exemplo, utiliza as idas ao supermercado para instruir o filho Rafinha, de 5 anos, sobre o valor do dinheiro. Com uma quantia de R$ 10, o menino compara preços e toma decisões de compra, muitas vezes desistindo de itens mais caros. “Ele vai olhando os preços, escolhendo o que quer comprar. E, quando vê alguma coisa muito cara, às vezes ele mesmo desiste, procura outra opção”, relata Silas. A iniciativa ganhou visibilidade, com três publicações sobre o tema ultrapassando 10 milhões de visualizações nas redes sociais da família.

Em casa, o aprendizado de Rafinha é complementado por três cofrinhos com propósitos distintos: um para gastos imediatos, outro para economizar visando o futuro e a realização de sonhos, e um terceiro dedicado à solidariedade. “Então a gente tenta ensinar não só a importância de economizar, mas também a de compartilhar”, afirma o pai. Essa abordagem visa incutir noções de planejamento e responsabilidade social no menino.

A empreendedora e jornalista Taiana Costa também integrou o tema na rotina dos filhos Lucas, de 10 anos, e seu irmão de 7. Inspirada por sua própria trajetória de trabalho precoce para alcançar objetivos, Taiana desenvolveu um sistema lúdico para que os meninos administrem seus recursos. Este método permite que atividades específicas gerem ganhos extras, enquanto certas situações resultam em descontos, com o saldo sendo calculado ao final do mês.

Através deste sistema, Lucas, que começou com a mesada aos 9 anos, aprende a estabelecer metas de consumo. Ele poupa dinheiro para adquirir itens mais caros, como um celular ou um PlayStation 5. A proposta, segundo Taiana, é demonstrar que a concretização de desejos exige planejamento e que gastar tudo de uma vez pode comprometer outras aspirações. "Se ele ganhou R$ 100, que tal gastar R$ 90 e guardar R$ 10 para comprar o videogame lá na frente? De pouquinho em pouquinho, você traz a consciência de que é possível alcançar algo mais caro", explicou Taina ao g1.

As dificuldades dos pais não se limitam à mesada. A pesquisa Serasa/Opinion Box, realizada entre 31 de agosto e 15 de setembro de 2026 com 1.066 pais de filhos até 18 anos, revelou que, após investimentos (28%), os temas mais complexos para explicar são dívidas, juros e golpes ou fraudes financeiras, todos citados por 21% dos entrevistados. Este cenário evidencia a necessidade de ferramentas e orientações para que os adultos consigam abordar essas questões de forma eficaz com as crianças.

A pesquisa da Serasa também trouxe à tona a preocupação com o ambiente digital: 32% dos pais afirmaram que seus filhos já realizaram compras não autorizadas em aplicativos, jogos ou plataformas on-line, sendo que em 60% desses casos os gastos não ultrapassaram R$ 100. Adicionalmente, um levantamento do Instituto Locomotiva mostrou que 83% dos brasileiros concordam que as crianças de hoje priorizam telas em vez de brincadeiras ao ar livre, e 82% são contra o acesso a celulares e tablets por crianças de até 3 anos. Estes dados reforçam o desafio de ensinar consumo consciente em um mundo cada vez mais conectado.

Orientações de especialistas sobre educação financeira

Para a professora doutora Arethuza Zero, fundadora da Educafinanceira, a introdução à educação financeira pode começar a partir do momento em que a criança demonstra os primeiros desejos de consumo. "A conversa começa antes mesmo de a criança nascer, quando os pais decidem ter um filho e fazem escolhas sobre o quarto, o enxoval e tantas outras coisas", explica Arethuza. Na prática, o ponto de partida é quando a criança começa a usar expressões como “quero” ou “compra”, sinalizando seu interesse por algo.

Ao negar um pedido, a especialista orienta que os pais contextualizem a situação, explicando que o dinheiro é resultado do trabalho e que algumas coisas exigem tempo e espera. Sobre a mesada, Arethuza Zero a considera uma ferramenta útil, mas não a única, e ressalta que seu valor deve ser compatível com o orçamento familiar. Ela desaconselha vincular a mesada a notas escolares ou tarefas domésticas que fazem parte da convivência, focando, em vez disso, no estabelecimento de combinados e na administração autônoma do dinheiro pela criança.

Em caso de a criança gastar toda a mesada antes do fim do mês, Arethuza Zero aconselha os pais a não cederem a pedidos de mais dinheiro. "A criança precisa aprender a lidar com as consequências das próprias escolhas", pontua. O objetivo é que a criança reflita sobre o que poderia ter feito diferente, sem julgamentos, entendendo que decisões financeiras na infância têm custos menores do que na vida adulta, o que representa uma oportunidade de aprendizado valiosa.

No contexto de Pix, cartões e compras digitais, a especialista enfatiza a importância de trabalhar com o concreto. Ela sugere o uso de cédulas e moedas em situações cotidianas, como compras na cantina da escola, para que a criança visualize o fluxo do dinheiro. "Passar um cartão ou fazer um Pix pode não dar a mesma percepção de que o dinheiro está acabando", comenta. Além disso, é crucial dialogar sobre consumo consciente e monitorar o uso de telas e aplicativos onde compras podem ser realizadas facilmente.

Para ensinar consumo consciente, a doutora Arethuza recomenda envolver os filhos nas compras da casa, montando listas e verificando o que falta. No mercado, é importante evitar a pressa ou a fome, momentos em que é mais difícil manter o planejamento. Ao apresentar contas de consumo, como água e luz, os pais podem explicar como pequenas atitudes impactam nas despesas. Em momentos de dificuldades financeiras familiares, a honestidade e a comunicação adaptada à idade da criança são fundamentais, sem transferir responsabilidades adultas ou incentivar comparações com outras crianças, a fim de que os filhos compreendam suas próprias possibilidades.

comentários (0)

você precisa estar logado para comentar.

entrar / cadastrar

Leia Também

Fim da escala 6X1

Senado aprova fim da escala 6x1 em votação estratégica e gera alerta para empregos

Decisão, pautada por Davi Alcolumbre às vésperas do 2º turno, levanta preocupações com desemprego, inflação e operacional de empresas, segundo analistas.

Senado aprova fim da escala 6x1 em votação estratégica e gera alerta para empregos
—Em Economia
Política

​A miragem do Pix MEI: o custo fiscal da sobrevivência política e a conta empurrada para 2027

Pacote Prospera MEI aposta em anistia tributaria e repasses a fundo perdido para seduzir trabalhadores autonomos, mas condiciona benesses ao Congresso e transfere o impacto financeiro para o proximo mandato presidencial.

​A miragem do Pix MEI: o custo fiscal da sobrevivência política e a conta empurrada para 2027
—Em Economia
Às vésperas do 2º turno

Lula anuncia pacote a MEIs a 12 dias da eleição

Proposta eleva teto de faturamento e prevê renegociação, enquanto microempresas sofrem com alta carga tributária e inadimplência.

Lula anuncia pacote a MEIs a 12 dias da eleição
—Em Economia